André Borges Lopes

Por Reflexões 29/03/2020 - 00:00 hs

COMER FORA EM UBERABA - III


Nos anos seguintes ao final da 2ª Guerra Mundial, em 1945, Uberaba enfrentou um período de estagnação econômica em função de uma longa crise de queda de preços e endividamento que atingiu o setor pecuário – e que só foi encerrada uma década depois. Por outro lado, teve início nessa época a transformação da cidade em um centro universitário, com a abertura de uma série de cursos superiores, em especial as faculdades de Odontologia (1947), Filosofia, Ciências e Letras (1949), Direito (1951), Medicina (1954) e Engenharia (1956). Em pouco tempo, a pacata cidade do interior começou a receber jovens que chegavam de diferentes lugares do país, além dos professores, dos técnicos e dos inúmeros eventos que ocorriam em função desses novos cursos.

Essa mudança também se refletiu na cena gastronômica. Parte dos bares e restaurantes da década de ouro do Zebu não havia resistido à crise. Em seu lugar, surgiram estabelecimentos, mais despojados, adequados aos novos tempos. Destacam-se entre eles duas churrascarias que ficaram famosas: “El Toro” e “Itararé”. A “El Toro”, montada por Vinícius Piva e Ênio de Almeida,  funcionava em um grande terreno nos fundos da casa do pai de Vinícius, no terceiro quarteirão da Rua Artur Machado. Em 1955, o jornal “Lavoura e Comércio” a descreveu como “um recanto esplêndido, uma espécie de Churrascaria Gaúcha, mas bem mais bonito e pitoresco, fadado a ser a reunião de muitas famílias uberabenses”. Ficou famosa por receber políticos e visitantes ilustres que vinham à cidade, dentre eles o líder comunista Luís Carlos Prestes, homenageado com um jantar em 1959.

Já a concorrente “Itararé”, dirigida por Idelfonso Gutierrez, instalou-se na Rua Major Eustáquio, em um terreno pouco abaixo de onde hoje existe o edifício e galeria Chapadão. O jornalista Luiz Gonzaga de Oliveira, nos conta que filas se formavam na porta, à espera de uma mesa. Essa churrascaria funcionou até meados da década de 1970, sob comando da esposa e de um genro do fundador. As pioneiras “El Toro” e “Itararé”, com seus ambientes informais e preços mais acessíveis, deram início ao hábito de jovens e famílias saírem para confraternizar e jantar fora de casa, até então um evento raro, reservado a ocasiões especiais.

Outro estabelecimento que se adaptou aos novos tempos da cidade e ganhou muita fama foi o “Bar da Viúva”. Aberto na década de 1930 pelo espanhol Felipe Vazquez como uma confeitaria, transformou-se após a morte do fundador em um bar especializado em pizzas, salgados e tira-gostos, sob comando da viúva, dona Maria, e seus filhos. Foi, por décadas, a mais movimentada pizzaria da cidade, e muita gente ainda se lembra com saudade dos filés a palito e porções de calabresa que acompanhavam a cerveja e o chopp gelados.

No mesmo modelo de oferecer boa comida em ambiente simples e a preços camaradas, surgiu na Rua João Pinheiro, esquina com Padre Zeferino, o Restaurante e Bar Pulenta. Enviado a Uberaba em 1967 para cobrir a exposição de gado, o repórter Wanderley Midei do jornal Estadão foi conhecer o estabelecimento, “propriedade de um italiano gordo que gosta de tomar 12 cervejas por dia; honrando o nome, serve um frango com pulenta por três cruzeiros novos, que é conhecido em todo o Triângulo Mineiro”, nos contou. O “italiano gordo”, que todos conheciam como “seu Pulenta” era a alma da casa: supervisionava o salão e confraternizava com os clientes, enquanto sua esposa cuidava do caixa.

Nas décadas de 1950 e 60 surgiram também diversos bares, pequenos restaurantes e casas noturnas que atraiam o novo público jovem que agitava as noites da cidade. Muitos ainda se recordam do Bar Marabá, da Boite Luna e do Hawai, um café e lanchonete inaugurado em 1955 pelo construtor Fausto Salomão, que servia pizzas, comida árabe e um “café à moda havaiana”.

Mas, ao lado dessa variedade de estabelecimentos informais, foi também no final da década de 1950 que Uberaba ganhou aquele que talvez seja a maior referência em elegância e boa cozinha entre os restaurantes do século passado. No final da década de 1950, o Grande Hotel da Avenida Leopoldino de Oliveira construiu um prédio anexo com novos apartamentos, mais modernos e confortáveis. Aproveitou o andar térreo para instalar o restaurante “Galo de Ouro”, que chamava atenção pela bela decoração, pelo serviço cuidadoso e por uma “cozinha internacional” de alta qualidade. No mezanino havia ainda um piano bar, que também marcou época. Caro e sofisticado para os padrões da cidade, foi por muitos anos o ponto de encontro das famílias abastadas e local escolhido para festas e comemorações,