Em questão

Por Prof. Décio Bragança 29/03/2020 - 00:00 hs


Tem piedade de nós, Senhor! Há muito tempo, ouvi e até já escrevi sobre a diferença de um pai e uma mãe. A mãe sempre é. O pai está. Qual a diferença entre o ser e o estar? Ser é existir: “sou aquela que é”. Quase uma eternidade. Quase uma deusa. Estar passa por uma opção, por uma adoção, porque significa ficar, permanecer, continuar. Nesse sentido, acredito que todo pai deveria ser adotado e adotar: filho adotado com pai ado-tado, ou ainda um pai adotado com filho adotado. Em algumas poucas tribos indígenas brasileiras, a família é constituída apenas pela mãe, pelo pai, por irmãos e filhos. A mãe é a encarregada de trazer a vida. A mulher, porque assim também é o reino animal, esco-lhe o homem mais bonito, mais inteligente, mais forte, mais saudável. A mulher já grá-vida desse homem, quer um pai para o seu filho, que necessariamente não é esse ho-mem. Para a mulher, o pai tem de ser modelo, tem de ser bom, tem de ser verdadeiro, tem de ser alguém capaz de manter a vida do filho, que, em outras palavras, ter a capa-cidade de ensinar a seu filho a sobreviver: caçar e pescar, orar e respeitar, relacionar-se consigo mesmo, com os outros, com os seus deuses. 


Tende misericórdia de nós, Senhor! Ao parir, a mulher entrega seu rebento a esse novo homem, depois de mais ou menos quarenta dias, como se dissesse: “já fiz a minha parte, agora a responsabilidade é sua”! Porque a responsabilidade desse homem é muito gran-de, dizem alguns que ele passa nesses quarenta dias por uma espécie de resguardo, com muita angústia e oração, na solidão, na reflexão e até jejuando. Na realidade, está se preparando para essa nova empreitada, porque também para ele é uma grande honra e glória. Acontece situações muito estranhas para a nossa civilização: é possível um índio ter quarenta, cinquenta filhos, sem que nenhum seja biológico; é possível muitas mães conviverem com tantas crianças sob a responsabilidade de um mesmo pai, constituindo assim uma grande família; é possível uma índia conceber filhos de vários índios e todos eles terem o mesmo pai, escolhido pela mãe; as relações sexuais acontecem na selva dis-tante das ocas, das ocaras, das tabas, das aldeias; sexo e família são conceitos e ideias, para eles, totalmente diferentes; porque não está em jogo heranças e dinheiro, a ideia de posse, de ciúme, de crimes passionais não existem. 


Tende pena de nós, Senhor! Tem-se notícia de que semelhante situação também aconte-ce em muitas tribos no Peru, no México. Imagino que quando pequenos nos ensinaram que Deus é Pai de todos, por isso somos todos irmãos, os nossos pais biológicos – pa-pai e mamãe – nos entregaram a Deus: “Já fizemos a nossa parte, a gora a responsabili-dade é sua”! Assim é a grande família! O grande problema é que nosso Pai-Deus – esco-lhido por nossos pais – nos ensina muitas lições de amor e paz, mas nós – seus filhos – fazemos questão que não o escutar, nem o seguir, nem o ter como modelo. Por isso tam-bém não vivemos como irmãos. A civilização ocidental é patriarcal, machista, hedonista, egoísta, narcisista. Os homens – os machos – não querem responsabilidade nenhuma. Muitas mães batalham, lutam desesperadamente sozinhas para manter a vida de seus filhos.  As mulheres são educadas para toda a responsabilidade de educar e preparar os filhos para a vida. Claro – que bom – as mulheres estão reagindo a tudo isso. 


Tende compaixão de nós, Senhor! Caminhamos muito pouco. Muitas mulheres, diaria-mente, continuando sendo torturadas, física e psicologicamente, assassinadas com re-quinte de crueldade e muita violência. Há casos de desaparecimento-fuga do pai, sem nenhum senso de paternidade. Muitos desaparecem desde o momento em que a namora-da diz estar grávida. Nesse sentido, acredito que a paternidade é opção, é escolha, é ado-ção, é estar. A questão é que, na nossa cultura, permanece a ideia de pai como provedor, abastecedor, banqueiro, financiador, possuidor – o que o torna dono da verdade e da mulher e dos filhos. “Manda que tem dinheiro”! O homem, ao prover, dando dinheiro, acredita que já cumpriu sua obrigação. Quando a insegurança, ou a fome, ou a miséria cresce ao lado da família, quem mais sofre e se sacrifica é, sem dúvida, a mulher. Muitas para salvar e alimentar seus filhos, aceitam as piores humilhações e discriminações. O projeto “Minha casa, minha vida” da presidenta Dilma oferece a escritura da casa para a mulher com os filhos, porque todos sabemos que facilmente o homem arranja outra mu-lher e vai viver novas aventuras. 


Perdoai os nossos pecados, Senhor! Isso não é critério para dizer se esse homem é bom ou mau, honesto ou desonesto. Queiramos ou não, uma casa – a moradia – é motivo de muito orgulho e alegria, porque é impossível um núcleo familiar, por menor que seja, sem casa que a raiz da família. Daí a importância das políticas públicas de habitação – primeiro passo de respeito à família, grupo de pessoas que se toleram e se amam, pouco importando a opção sexual de seus membros. Importa mais os conceitos e as ideias de pai, de mãe, de irmão, de filho. Casa é lugar de repouso e descanso; família é lugar de paz e amor! Lembro-me de um projeto de lei, proposto há uns dez anos, para que as do-nas-de-casa – mulheres que optam por cuidarem da casa e dos filhos – aos sessenta anos, receberem aposentadoria. Foi um Deus nos acuda! Vozes do país inteiro se levan-taram e nunca mais ninguém falou disso. Muitas mulheres saem de casa para terem um emprego – que bom! E os filhos? As prefeituras, minimamente, constroem creches. Sem creches, sem as mães ou alguém para o cuidado e trato, as crianças estão cada vez mais vulneráveis, ou presas fáceis para o tráfico de órgãos, para o estupro, para entrega de drogas, para o assalto e furto. Como somos perversos: queremos agora a diminuição da idade penal. Cada vez mais me convenço de que o governo e os que se mantêm no poder não gostam de gente, não amam e não gostam dos que amam. E os privilégios continu-am. E o individualismo toma conta dos nossos pés e braços, mente e coração. A moder-nidade nos trouxe a certeza de nossa emancipação em busca da fama e do sucesso, da riqueza e do poder.