Em questão

Por Prof. Décio Bragança 08/12/2019 - 00:00 hs

AS ARMAS SE TORNARÃO LÁPIS - Em tempos de Advento – preparação para o Na-tal – continuamos a refletir sobre este fato extraordinário: o nascimento de um Deus. Todos nós em momentos da vida buscamos explicações para os nossos sofrimentos e dores e morte. Pedimos com muita fé e esperança também ajuda e apoio às nossas lutas e esforços, porque afinal nascemos para a vida e a felicidade, apesar da falta de sentido, de esperança, de valores, de perspectivas da vida moderna. A isso dá-se o nome de “nossa miséria espiritual”. Como tudo virou mercadoria, o Natal tornou-se a data mais significativa para a indústria e comércio. Não interessa mais se amamos mais ou ama-mos menos neste ano. Interessa-nos o quanto compramos ou vendemos neste ano. 


OS CANHÕES SE TORNARÃO ALIMENTOS - A questão mais importante do Natal é entender as nossas relações com o divino e, por extensão, as nossas relações com os ou-tros homens, porque nascemos para servir. Estar a serviço nos traz e nos dá a paz e tranquilidade de que tanto precisamos. Na noite em que Jesus nasceu, Maria e José, em Belém, bateram de porta em porta pedindo um espaço em suas casas onde um Deus pu-desse nascer. Os moradores, todos, negaram um lugarzinho. Sem alternativa, foram para a periferia e encontraram uma manjedoura – cocho para alimentar animais. Não há lugar digno para um Deus nascer. As casas e os corações sempre, em todos os tempos e luga-res, estão fechados, trancados, aferrolhados, assegurados com fortes cadeados. 


AS PRISÕES SE TORNARÃO HORTAS COMUNITÁRIAS - Mais tarde, encontramos em Mateus, capítulo 8, no versículo 20, uma expressão muito forte de Jesus: “As rapo-sas têm locas e as aves do céu têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar sua cabeça”. O fato é que muitos homens e mulheres ainda não têm um lugar para reclinar a cabeça. A carência de moradias é fato concreto e muitas crianças conti-nuam nascendo em manjedouras, sem nenhuma assistência médica, porque também há uma carência de médicos, leitos e hospitais. Quando se noticia que uma mulher deu à luz e abandonou o filho, ou jogou-o no lixo, vozes ferozes e demoníacas gritam horrores contra essas mães. 

AS ALGEMAS SE TORNARÃO ROSAS - Qual de nós teria dado um lugar para essas mães darem à luz esse filho? Qual de nós encaminharia essas mães para um atendimento hospitalar? No final do mês de outubro foi noticiado que, em 2018, os mais pobres fica-ram 3% mais pobres e os ricos ficaram 9% mais ricos. Isso significa que as desigualda-des se acentuam assustadoramente. Mas para muitos isso pouco importa. Importa a mi-nha vida: casa para morar, automóveis para passear, alimentos para esbanjar, roupas para ficar na moda, terras para especular, dinheiro para comprar até coisas inúteis e ou desnecessárias. O individualismo somado ao desejo de consumir cada vez mais está che-gando ao limite da imoralidade, da deslealdade, da desumanidade. 


AS ESCOLAS SE TORNARÃO JARDINS - Esquecemo-nos com facilidade ou proposi-talmente de que somos para nós mesmos e somos para os outros. A justificativa é sem-pre a mesma: sempre houve e haverá pobres e miseráveis. Pode até ser verdade, mas os direitos de todos terem uma casa, alimentos, água, agasalhos, remédios são inalienáveis, inegociáveis, inquestionáveis. Veja que não citei educação e escolas, saúde e hospitais, emprego e qualificação profissional, saneamento básico com água e esgoto tratados, porque isso tudo é artigo de luxo. Nesse sentido, muitas ou algumas religiões prestam um desserviço às pessoas, pregando consolo, paciência, esperança, resignação, felicida-de eterna. A miséria e a pobreza são construções sociais, nunca castigo ou punição de Deus. 


A GUERRA SE TORNARÁ UM GRITO DE PAZ - Caso fosse, Deus seria a pessoa mais injusta, dando para alguns privilégios e benesses, para outros sofrimentos e des-graças. Deus tornou-se homem para ensinar aos homens que é possível construir uma humanidade melhor com base no amor e misericórdia, no perdão e compaixão – crité-rios de salvação e de libertação. “Na casa de meu Pai, há muitas moradas” – nos ensina Jesus através de João, no capítulo 14, versículo 2. Essa citação, para mim, é muito mais uma denúncia do que um consolo, um grito de alerta do que resignação. Outro mundo é possível, construído em bases sólidas da fraternidade e solidariedade, sem discriminação e divisões, sem preconceitos e rusgas. 

AS NAÇÕES SE TORNARÃO UMA ÚNICA HUMANIDADE - Observemos a multi-dão de migrantes no mundo inteiro que fogem da fome e da miséria, da guerra e da po-breza – critérios de escravidão, de servidão, de humilhação, de danação. Não serão esses migrantes os muitos Jesus que nasce na manjedoura, porque não são aceitos, acolhidos por ninguém, por nenhum país? As políticas públicas de habitação, de nutrição, de saú-de, de educação não atendem aos clamores e direitos da população. Tudo fica por conta de cada pessoa, de cada cidadão que, muitas vezes, parte para a ilegalidade, marginali-dade. A indiferença é tamanha que nada disso nos incomoda, enquanto os nossos direi-tos não são desrespeitados, enquanto os nossos privilégios são mantidos. 


O NOSSO PLANETA SE TORNARÁ NOSSA ÚNICA CASA - Fechamos os olhos e os corações aos direitos dos outros, aos problemas dos outros. Não criamos pontes, elos necessários para a convivência humana. Fechamos os ouvidos aos apelos e choros dos outros, porque pensamos que os problemas dos outros são dos outros. Fechamos a bo-ca para não denunciar os desaforos e desmandos dos governos e das pessoas.  Temos todas as armas possíveis, inclusive as jurídicas, para nos dar mais conforto e segurança, proteção e apoio. Não queremos a empatia – viver, experimentar a vida dos outros – nem a sinergia – ajuda e socorro ao corpo social doente. Alguns afirmam que a violência no Rio de Janeiro nunca vai acabar, porque de lá de cima dos morros, das favelas, dos cortiços, veem-se as grandes e luxuosas mansões em condomínios fechados, na orla das praias. Arranjaram um culpado: a geografia do Rio. 


NOSSOS CRIMES E PECADOS SE TORNARÃO PERDÃO E AMOR - Fala-se muito pouco em urbanizar as favelas e os morros, com infraestrutura digna para o funciona-mento de escolas, hospitais, fábricas, comércio, oficinas, correios, edifícios públicos prestadores de serviços, secretarias do Estado, cartórios, escritórios, espaço de lazer e cultura, iluminação pública, saneamento básico, planejamento arquitetônico, escritura-ção e posse das casas e dos terrenos. No entanto, comemoramos com luzes e cores e fo-gos e presentes a noite de Natal.