Em questão

Por Prof. Décio Bragança 01/12/2019 - 00:00 hs

Olha o que foi meu bom José - Em tempos de Advento, quero refletir um pouco sobre as festas natalinas, além de seu sentido comercial. Acredito que, talvez o primeiro gran-de erro da humanidade aconteceu quando se dividiu o homem em duas partes: corpo e alma, matéria e espírito. O UM é sempre indivisível e imultiplicável; se dividido por ele mesmo será sempre um e se multiplicado por ele mesmo será sempre um. E o homem é um, porque único, irrepetível, intransferível, inteiro, todo, cheio de si mesmo, como to-dos os seres, inclusive Deus. Nas lições de catecismo nos ensinavam: o Pai é Deus, o Fi-lho é Deus e o Espírito Santo é Deus. As crianças se agitavam e perguntavam ao cate-quista se havia três deuses. E o catequista, meio sem jeito e explicações, nos dizia que são três Pessoas em um só Deus – eis o mistério da Trindade-Una ou da Unidade-Trina. 

Se apaixonar pela donzela entre todas a mais bela - O Pai é Deus sem ser o Filho e o Espírito Santo; o Filho é Deus sem ser o Pai e o Espírito Santo; o Espírito Santo é Deus sem ser o Pai e o Filho: 1 x 1 x 1 = 1 ou 1 ÷ 1 ÷ 1 = 1. O que seria o corpo sem alma? O que seria a alma sem o corpo?  Dividir o homem em corpo e alma, privilegiando históri-ca e culturalmente a alma – o espírito – trouxe para a humanidade muitos interesses ocultos e intenções ocultas dos poderosos da política, da religião, da economia. Assim, o corpo poderia estar faminto, com sede, sem moradia, malvestido, malnutrido, mal dor-mido, maltratado, desprezado, humilhado, exausto, cansado, debilitado, sem saúde, sem dignidade, porque o que importava era a salvação da alma. 

Casar com Deborah ou com Sarah você podia - Até hoje, em alguns canais de televisão de caráter religioso, ouve-se falar: “dê-me almas” – “salve-se a alma” – “vamos salvar a sua alma” e tantas outras absurdidades, como se o corpo não valesse nada, fosse inútil, lixo. Esse dualismo, essa dicotomia, essa separação, essa divisão do homem em corpo e alma atende aos muitos interesses econômicos. O interessante é que num tempo atrás as mulheres eram consideradas seres sem alma com a única missão de procriar, de parir – nascimento do machismo – o homem como ser superior. Aqui, no Brasil, demorou al-gum tempo para que os índios e depois os negros fossem admitidos como seres alma-dos. Daí a ideia de o homem poder escravizar, maltratar, comprar, vender, matar mu-lher, índio, negro. Por isso as lutas das mulheres, dos índios, dos negros para alcança-rem e serem tratados com dignidade são enormes e incansáveis, fugindo da submissão, da sujeição, da humilhação, da exploração. 

E nada disso acontecia, mas você foi amar Maria - As primeiras lutas são de resistên-cias. As primeiras conquistas são de esperança. Foi um escândalo para os conservado-res e ortodoxos e reacionários e fundamentalistas religiosos do mundo inteiro quando o Papa Francisco, ao consolar uma criança que encontrou morto o seu cachorrinho de es-timação, disse que o cão havia ido para o céu. E por que o escândalo? Porque pensamos que o céu é um “lugar” de almas e como o cão não tem alma, não poderia ter ido para o céu. Um tempo atrás pensávamos que mulher, negro e índio também não poderiam ir para o céu por não terem alma, eram simples coisas, objetos. Para mim, nunca foi pro-blema entender que pessoas, animais, vegetais, minerais, tudo tenha alma, porque vida. 

Você podia simplesmente ser carpinteiro e trabalhar - Todos os seres vivos e não vivos formam uma unidade, uma família cósmica única, como entendeu e nos ensinou Francis-co de Assis (1182 – 1226). Daí considerar tudo como irmãos: Irmão Sol, Irmã Lua, Irmã Água, Irmã Terra, Irmão Ar, Irmão Fogo, porque filhos do mesmo Deus-Pai e Deusa-Mãe – porção paterna e porção materna de um mesmo e único Deus. Tudo está em Deus e Deus está em todas as coisas. Somos um com tudo e com Deus. Nada existe fora do todo. Não por acaso, na Teoria do Big Bang, é afirmado que tudo provém de uma única partícula – o átomo primordial – que causou um cataclismo cósmico há quase 14 bi-lhões de anos. Para muitos e para mim também, essa partícula única tem de ser chamada de Partícula de Deus. 

Sem nunca ter que se exilar, de se esconder com Maria - Cada átomo, cada molécula, cada célula, cada ser é uma Partícula de Deus. E porque eterno – sem tempo, sem ontem, sem hoje, sem amanhã – tudo continua em expansão. Mas isso é panteísmo, criticarão alguns. E daí? Deus é a força, a energia, a garra, a vontade, o desejo que une tudo no mesmo universo. Vivemos, hoje, talvez a maior crise de valores de todos os tempos, porque também perdemos a noção dessa irmandade universal. Crise são momentos de crescimento e vida, superando dogmatismos e sectarismos, radicalismos e intolerância, renovando propósitos e metas, concepções e fé, optando pelo bem e confiança, pelo no-vo e amor. Não há caminhos, fazem-se caminhos enquanto se caminha na utopia e na esperança. Estamos perdendo o sentido do sagrado da vida e da história dos homens. Gosto muito da ideia de entender Jesus como Emanuel – Deus conosco. 

Meu bom José você podia ter muitos filhos com Maria - Em outras palavras, o Natal me traz a ideia de que não estamos sozinhos, porque Deus nasceu para estar conosco. Dizer que Deus está conosco – Emanuel – é entender a solidariedade internacional, a coopera-ção de todos os homens, a luta pelos direitos de todos e de cada um, o respeito devido à natureza e a todos os seres vivos e não-vivos, a ética na política, a justiça como dever e meta, a paz e respeito nas relações entre todos, mesmo que de diferentes raças e nações e culturas e cores e credos e opções. A santificação de Irmã Dulce, para nós, brasileiros, traz um sentido essencial e fundamental para quem precisa de amizade, de solidariedade, de carinho e de amor. Há ainda muita fome e miséria, muitas doenças e mortes prematu-ras, pessoas que nascem, vivem e morrem sem a presença de um coração que ama, de um braço que acolhe, uma perna que indica caminhos. 

Por que será que seu filho andou com estranhas ideias que fizeram chorar Maria - Há muitos excluídos no mundo e no nosso país, porque vivemos momentos do “vale tudo” para o poder e riquezas, bens e fama, sucesso e domínio. Fazemos questão de não nos aproximar de nenhum deles. Sem contato com as pessoas necessitadas com existem possibilidades de compreensão e ajuda. O único critério de salvação e libertação é o amor. Com a aproximação do Natal – humilhação de um Deus que se encarna para o nosso bem e libertação – vamos pensar na possibilidade mínima de que no próximo Na-tal haja menos excluídos. Para tanto, pensemos na gratuidade da vida e do amor – expe-riência do sagrado, do divino na nossa vida, já que nos todos e muitos natais o céu des-ceu, Deus se fez homem, como nós.