Mulherio

Por Juba Maria 01/12/2019 - 00:00 hs

De olhos bem vendados


Hoje, pela manhã, na correria diária, esqueci-me de agradecer ao Universo por esse dia. Vez ou outra isso me ocorre, infelizmente. Mas ao longo das últimas semanas, preocupada, agradeci agradeci agradeci e fiz anotações sobre a cegueira. Tema que surgiu, naturalmente, depois de outros: organicidade, sintropia e protocooperação . Trarei eles ainda.

Por hora, preciso escrever sobre o último dia 25, data escolhida internacionalmente pela Organização das Nações UNidas para a Não-Violência Contra a Mulher. Nessa mesma data, em novembro de 1960, as irmãs Pátria, Minerva e Maria Teresa, conhecidas como “Las Mariposas”, foram brutalmente assassinadas pelo ditador Rafael Leônidas Trujillo, da República Dominicana. As três combatiam fortemente aquela ditadura. Desespero. Sangue. Silenciamento. Estrangulamento. Ossos quebrados. Seus corpos foram encontrados no fundo de um precipício. 

Em Uberaba, a semana foi marcada por eventos de conscientização, palestras e a realização de uma audiência pública na Câmara Municipal de Uberaba (CMU) por iniciativa da vereadora Denise Max, que já passou pela situação de violência machista.

Na última semana também me aconteceu assim: além de falar sobre o tema para alunos da Uniube, assisti, com atraso, ao filme Bird Box, ao seminário “A Cegueira”, de Jorge Luis Borges no Teatro Coliseo, em Buenos Aires, ocorrido em 1977, e retomei a leitura de “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago. Nas palavras de Borges, que perdeu a visão na velhice, a cegueira é, pasmem, verde, amarela e azul. Já no livro de Saramago, o cego explica: “a cegueira dizem que é negra, Pois eu vejo tudo branco”. 

Como em Bird Box, Borges garante: a perda da visão fez-se abrir um outro mundo. No caso do escritor argentino, um mundo auditivo, o mundo do idioma anglo-saxão. E, como todo bom lugar de fala, aqueles a quem reservou-se uma experiência - não se pode negar - são os únicos capazes de desvendar algumas de suas nuances. Precisamos falar menos e ouvir mais.

Infelizmente, a primeira audiência realizada na CMU sobre Feminicídio e Violência contra a Mulher foi tímida, exceto pelas falas contundentes da advogada criminalista e presidente do Conselho da Comunidade de Execução Penal, Roberta Toledo, e da assistente-social do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, Nathália Moreira Albino. Isso sem falar na leitura do belo - e triste - poema da assistente social da Fundação INANA, Valquecia Costa: “a voz que clama” e diz em meio a lágrimas: “nenhuma vítima de violência fica porque gosta, muito menos porque merece”.

Enquanto isso, porém, Uberaba traz índices preocupantes, com dois feminicídios registrados em 2019 e 587 pedidos de medida protetiva requeridos esse ano. Outra preocupação é a exposição de dados das mulheres constantes nos Boletins de Ocorrência pela mídia uberabense. Falta ética e respeito por parte dos colegas da imprensa.

As vendas nos olhos realmente marcaram a semana das “Mariposas”: em Santiago, no Chile, um grupo de mulheres de olhos vendados realizou uma performance para criticar os abusos sexuais cometidos por policiais. “Um estuprador em seu caminho”, faz uma clara referência ao slogan “um amigo em seu caminho”, das campanhas publicitárias dos Carabineros (polícia militarizada, similar à PM).

Para o que temos fechado os olhos? E o que, uma vez vendados pelo destino, podemos ver e antes não podíamos? Qual será o mundo mais rico e interior? Que palavras descobrir? Que ações tomar diante do patriarcado? Que críticas temer e que outras abraçar? Que modo de vida escolher? Enquanto isso….centenas e centenas de mulheres uberabenses são agredidas, violadas, abusadas diariamente….Quem de nós é dependente? Quem tem medo? Quem é responsável? Quem cegou?


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